A cagar e a rir...



No outro dia, quando fui à casa de banho, entreti-me a ler a única revista do Expresso que estava por lá, já antiga e que já tinha lido quase toda. Com ar de frete, pus-me a ler as cartas abertas do Comendador Marques de Correia, que é aquela parvoice da última página. Mas nessa semana, lia-se o seguinte:

"Sempre a tomar balanço


Lisboa, 20 de Dezembro de 2006

Aos Portugueses em geral,

Desde que tomei posse do meu novo cargo de Secretário de Estado dos Assuntos Inexpli´cáveis (adiante designado por SEAD) que tenho pensado maduramente no assunto. Aparentemente, as coisas têm piorado e de que maneira. Mas isto é só aparentemente.
O que agora nos afecta, não só é um sentimento mau que se apodera de nós, uma espécie de torpor de mal-estar que é fatigante e muito indesejável. É, além disso, todo um cansaço físico acumulado, um desejo enorme de mudar de local e de modo de ser, sem dar por certo de que aí, noutro sítio e com outra idiossincracia, ficaríamos melhor.
Depois há também o clima. É certo que é bom. Mas é demasiado quente, ou demasiado frio; demasiado chuvoso ou demasiado seco; no geral é um bom clima que não presta para nada.
E temos as pessoas. Boa gente, simples, nada sofisticada, mas que também para pouco serve. São hospitaleiros, mas não gostam de ser incomodados. E são invejosos, embora amigos de ajudar. Acima de tudo são trabalhadores, embora nada produtivos e com um especial fervor para as discussões, embora odeiem polémicas.
Os homens são machistas, embora não se importem que as mulheres mandem neles, ao passo que as mulheres são feministas, mas totalmente submissas.
De resto, há a paisagem, que é quase tudo, e os monumentos que são maltratados. E ainda a História, a grande gesta do povo que o levou a dar novos mundos ao mundo, embora não tenha recebido nada em troca que não tenha gasto imediatamente em coisas inúteis que agora admiramos com gosto, como a Torre de Belém, o Estádio de Braga, a igreja do Marco ou o Convento de Mafra.
Tudo isto aguentámos com estoicismo, com enorme virtude e determinação frouxa, própria do nosso estilo, da nossa poesia, da defesa do Benfica. Não raro nos orgulhámos de ser assim e houve até quem achasse que isso era bom.
Depois veio a Europa. E desde que veio a Europa e a moeda europeia, que nos podemos comparar com os outros. Passou-nos a Irlanda, que eram uns tipos que vinham da crise da batata e da fome total. Passaram-nos os gregos, que são praticamente orientais, desorganizados e confusos. Passaram-nos os checos, que ainda há 20 anos eram pouco mais que uma colónia. Por fim, passou-nos o Chipre que nem sabemos onde fica e estamos aflitos com Malta, para que Malta não nos passe. Logo Malta, que é um povo com quem temos tantas afinidades, como se vê pelo nome.
Contra a angústia nacional vejo-me obrigado a revelar o segredo que está guardado há tanto tempo: isto é uma táctica! Nós estamos a andar para trás, porque somos como os carrinhos de corda. Estamos a tomar balanço. Um dia, largamo-nos e ultrapasamos esses palhaços todos. Chegaremos à Dinamarca, ao Luxemburgo. Estamos a tomar balanço! Por isso, se para o voltarmos a descer, não se admirem nem entrem em pânico. Comendador Marques de Correia."
publicado por D. às 22:42 | comentar | favorito